Por um punhado de credibilidade

Responda rapidamente: a produção de jogos de computador no Brasil padece de falta de credibilidade crônica?

Por Renato Degiovani

Antes de atirar a primeira pedra em minha direção, quero deixar claro que isto não é um julgamento de valor, mas apenas uma constatação e dado que credibilidade não se compra no boteco da esquina, a quilo, e temos um belo problema para resolver.

De fato, a credibilidade de um mercado produtor tem que ser construída ao longo de um árduo processo, que passa obrigatoriamente pelo compromisso de todas as partes envolvidas (principalmente as partes mais interessadas).

Faça o seguinte experimento, pois nele está a base para o perfeito entendimento do problema: visite pelo menos 10 sites de jogos aqui do Brasil (sites que se propõem a ter conteúdo editorial, notícias e análises sobre jogos de computador) e vai notar que a maioria (senão todos) sequer tem uma seção dedicada “exclusivamente” aos jogos brasileiros.

Isso é impensável, se pretendemos de fato ter uma industria nacional atuante, inclusive com vagas de trabalho para os profissionais que estão se formando nos inúmeros cursos de jogos, espalhados pelos principais centros e capitais. Não se trata de encontrar culpas ou falhas, mas de entender o problema e suas conseqüências.

Em tempo: ter uma seção exclusiva de jogos brasileiros não quer dizer ter uma área em destaque para falar bem ou para falar mal dos nossos jogos. Nem chegamos ainda a este estágio.

É preciso que esse tipo de iniciativa seja realmente efetivada para que as pessoas tomem (pelo menos) conhecimento de que existe uma indústria nacional de jogos de computador; que ela existe há mais de 20 anos; já produziu títulos muito bons e está em franco crescimento. E nada disso deve ser tratado pelo lado da qualificação dos jogos, simplesmente porque seria injusto fazê-lo.

A palavra “injusto” aqui não está sendo usada no sentido amplo de “perdoar” os possíveis deslizes técnicos ou qualitativos dos nossos jogos, em prol de um nacionalismo questionável, mas porque não se faz nenhum julgamento de valor sobre os jogos estrangeiros e, portanto seria errado fazê-lo com os nossos. Antes de pleitearmos um tratamento especial (favorável) aos jogos nacionais é preciso termos algum tipo de tratamento e é esta a raiz de todo o problema. A solução tem que partir obrigatoriamente da mídia especializada, porque este é o papel dela e de mais ninguém.

A simples exposição dos produtos já garante pelo menos o registro de existência. Isso evita, por exemplo, que a cada seis meses, alguém lance novamente o primeiro jogo brasileiro de computador, numa flagrante ignorância acerca da produção tupiniquim. Quanto mais conhecidos se tornam os jogos brasileiros, mais as pessoas se interessam em conhecer o conjunto da produção nacional e isso provoca um movimento que leva o mercado todo a uma melhora geral de qualidade (tanto dos jogos em si, como nas informações).

É por isso que mencionei o compromisso de todos os envolvidos e não apenas de segmentos distintos, como se os demais não tivessem responsabilidade no processo de evolução qualitativa do mercado. A seguir listo quatro iniciativas que merecem atenção especial:

1- Em 2003 o Senac publicou um catálogo de jogos nacionais, indo do início da década de 80 até os recentes lançamentos daquele ano. Num belíssimo trabalho de pesquisa da equipe da Faculdade de Comunicação e Artes, a publicação do Senac se tornou um verdadeiro registro histórico do que aqui já foi produzido.

http://www.sp.senac.br/comunicacao

2- Em 2004 criou-se a Abragames, Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Eletrônicos, cujo propósito fundamental é fortalecer a produção nacional, em ações de divulgação, pesquisa, alavancagem de investimentos e para servir como canal de comunicação entre as produtoras e as ações do governo para o setor.

http://www.abragames.com.br

3- Ainda em 2004 o Ministério da Cultura, em parceria com o Educine, lançou o primeiro concurso de idéias e demos jogáveis, com financiamento da produção e desenvolvimento para os vencedores. A segunda versão do concurso está em pleno andamento.

http://www.jogosbr.org.br

4- Em 2005 surge o primeiro site na internet dedicado exclusivamente aos jogos nacionais, às produtoras locais e à divulgação exclusiva de notícias deste setor.

http://www.jogosdaqui.com.br

Ainda temos muita coisa por fazer e muito esforço ainda vai ser despendido até que possamos estar no mesmo patamar de exposição que os jogos estrangeiros. Tal como ocorreu na música brasileira, será preciso um movimento conjunto de todos os interessados, para que possamos ter um pouco mais de credibilidade na produção nacional.

Nota do editor: a imagem usada para ilustrar o texto é do game nacional TaikoDom.


Renato Degiovani é Programador Visual e Desenhista Industrial, formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É autor e produtor de jogos para computador desde 1980. Foi diretor técnico e editor da primeira revista brasileira de informática, a Micro Sistemas, nas décadas de 80 e 90. Atualmente é o editor e produtor do site TILT online e escreve para diversos sites na internet.

6 Respostas to “Por um punhado de credibilidade”

  1. jecspawn Says:

    Realmente, no Brasil os jogos produzidos aqui são muito pouco divulgados, mas felizmente este quadro esta mudando, e esperamos que mudo muita coisa ainda, e que nossos jogos sejam muito valorizados aqui e la fora.

  2. Anonymous Says:

    totalmente discordo da parte sobre “jogos brasileiros”, aliais, nem faz sentido essa parte… mas o resto ta muito bom

  3. X-cão Says:

    Acho q o grande problema é que eles sempre querem copiuar jogos que já existem,devem tentar ser mais criativos para criar os jogos, assim vai conseguir sua credibilidade, fazendo jogos criativos e gostosos de jogar

  4. TheKnight Says:

    Fiquem de olho

    http://www.novusaster.com.br

    uma nova empresa de jogos nacionais a caminho.

  5. Roger Tavares Says:

    renato

    concordo em gênero, numero e grau com você, mas veja também que as próprias empresas de games nacionais não se valorizam culturalmente ou politicamente.
    Por exemplo, temos quase 60 empresas de games brasileiras e apenas 16 brasileiros cadastrados como membros efetivos da IGDA. Talvez a situação na Abragames não seja diferente. Então, se as próprias empresas não se valorizam, ou não investem em sua própria classe, porque a mídia, as editoras, ou mesmo o público, deveriam investir?

    grande abraco, e continue sempre com esse seu trabalho “engajado”

    roger tavares
    http://www.blog.gamecultura.com.br

  6. Renato Degiovani Says:

    Blz Roger, você está certíssimo. Mesmo a Abragames possui apenas 15 membros associados. Isso não caracteriza, nem de longe, uma representatividade do setor.

    As empresas precisam ser muito mais agressivas do que tem sido até aqui. Dou um exemplo próprio: nas últimas semanas abrimos aqui na TILT espaço para divulgar gratuitamente as produtoras e os produtores independentes. Só um de cada se interessou e olhe que a notícia circulou em todos os meios de comunicação.

    Com esse tipo de mentalidade, até parece que os produtores nacionais não querem vender, ou não dependem disso para existir.

    Quanto à mídia, ela deve se esforçar na divulgação por dever de ofício. Um site, jornal, ou revista existe para informar o seu leitor e é obrigação dele(s) garimpar notícias, estejam onde estiverem.

    E no final do processo, se o público consumidor quer de fato consumir bons jogos nacionais, tem que fazer a sua parte também, que é cobrar que os jogos existam, que sejam noticiados, que entrem na pauta das matérias.

    Como eu disse, todo mundo tem que participar e se esforçar para que a coisa ande como um todo. Se uma das pernas do tripé produtor/mídia/consumidor fraquejar, a coisa toda não anda.

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